Embora o meu amorseja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentando Pela graça indizíveldos teus passos eternamente fugindo Trago a doçurados que aceitam melancolicamente. E posso te dizerque o grande afeto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimasnem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavrasdos véus da alma... É um sossego, uma unção,um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta,muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noiteencontrem sem fatalidadeo olhar estático da aurora.
POEMA DOS OLHOS DA AMADA
Vinícius de Morais
Ó minha amada Que olhos os teus São cais noturnos Cheios de adeus São docas mansas Trilhando luzes Que brilham longeLonge dos breus... Ó minha amada Que olhos os teus Quanto mistério Nos olhos teus Quantos saveiros Quantos navios Quantos naufrágios Nos olhos teus... Ó minha amada Que olhos os teus Se Deus houvera Fizera-os Deus Pois não os fizera Quem não soubera Que há muitas era Nos olhos teus.Ah, minha amada De olhos ateus Cria a esperança Nos olhos meus De verem um dia O olhar mendigo Da poesia Nos olhos teus.